Consciência sanguinária

Nem o barulho do cigarro queimando no cinzeiro é tão alto quanto os gritos da convidatividade da madrugada pra me levar em busca do êxtase da noite.
Abro a janela da sacada e vou em direção ao abismo, fitando a cidade silenciosa, de luzes e adornos vermelhos. Os cachorros latem, o vento corta, as roupas no varal dançam. Eu me abraço, o frio é intenso.
Mais um trago.
Observar sem ser observado é como stalkear quando você pode fazê-lo sem ser notado. É prazeroso, instigante.
Retorno ao ponto em que sou capaz de sentir receio, em ansiar por algo além do que minha imaginção garante; e o nó na garganta aperta a cada passo. E essa sensação vicia.
De todos os dias do ano eu não poderia escolher outro melhor. Quero logo poder botar os pés na mesa e cruzar os pontos ocultos de histórias que ainda não sei contar.
Por ora contento-me em me restaurar do frio, me afastar do abismo e voltar pro aconchego da realidade.

"sempre me perco tentando ver memórias de onde eu nunca fui."


Estou pra ti como um descobridor ao ver a costa
Ou como o vento numa vela sem resposta
Se perco tempo apostando na jornada
Ou se me perco passeando em suas costas

Deixa ser, vamo lá
Sem bússola ou mapa, continuo a navegar
Deixa ir, tudo bem
Não teria graça se soubesse onde ia dar

(Laraialaia, laraialaia
Laraialaia, lairaiala)

Não sei mais, eu paro e vejo
Quanta coisa eu deixei pra trás
Faz falta, mas eu quase não me lembro

Quem me dera
Dormir e acordar sem preocupar com o que passou
Quem me dera
Se o tempo fosse o único inimigo de nós dois

Quem me dera
Se o que tem pra hoje fosse deixado pra depois
Quem me dera

(Laraialaia, laraialaia
Laraialaia, lairaiala)

Sempre me perco
Tentando ver memórias de onde eu nunca fui
Será que era só pra ser assim?

Eu vejo o vento soprando a vela
Aprendo com o tempo
Às vezes a bússola é meu sentimento

E beijo a vida com a gana dos favela
No afã de uma aquarela
Me virando como um catavento

Eu tava quase morto, mas um porto cais
Foi ela que me acalma, tipo florais
Eu brigo pra manter essa paz

Dormir e acordar sem preocupar com o que passou
Quem me dera
Se o tempo fosse o único inimigo de nós dois
Quem me dera
Se o que tem pra hoje fosse deixado pra depois
Quem me dera

(Laraialaia, laraialaia
Laraialaia, lairaiala)
(Laraialaia, laraialaia
Laraialaia, lairaiala)

Quem me dera
Quem me dera

(título da postagem retirado da música)

Rascunhos (2)

As estradas seguem longas, mas menos densas. Deixo a vida se encarregar do que tiver que ser. Ando fugindo mais de mim. O que me impulsiona nessa corrida sem fim são os novos vícios que coleciono, tão iguais aos de todo mundo, e isso dificulta com que eu me reconheça, ainda mais.

Eu me faço cigana, junto meus trapos e vou migrando de corações. Tenho mais cheiros na lembrança do que consigo contar. E o curioso é que mesmo tendo tantos, consigo um lugar especial pra cada um, um gatilho inspiratório diferente pra cada amor, como se poesias se fizessem em energia apenas pela faísca de uma simples lembrança.

Noutro dia, um dos mais recentes, cresci ainda mais. Descobri coisas novas sobre o amor, e confesso que nem queria. O não-saber é um baita privilégio. Demorei pra descobrir, e quando me dei conta, era tarde demais pra voltar atrás.

Mas sabe o que ainda continua, e ouso dizer que talvez se intensifica? Ainda deixo estar. Ainda guardo tanto, e tudo. Ainda deixo as coisas como são. Quem quer ir, vai. Quem quer ficar, fica. Continuo sem fazer questão. E essa indiferença nutre meus não-ditos.
Daí continuo assim: a encher rascunhos.
E a nunca enviá-los.